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No pronto-socorro, o erro não tem replay

Você confiaria a vida do seu filho, da sua mãe ou do seu pai a um médico que não conseguiu demonstrar conhecimento mínimo em uma prova básica de medicina? A pergunta parece dura, quase injusta....

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Barueri 360

Você confiaria a vida do seu filho, da sua mãe ou do seu pai a um médico que não conseguiu demonstrar conhecimento mínimo em uma prova básica de medicina?

A pergunta parece dura, quase injusta. Mas ela se impõe quando olhamos para os dados do ENAMED, Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica.

Porque, no fim, não é sobre prova. É sobre confiança.

O Enamed não foi criado para constranger médicos nem para humilhar quem está na ponta. Ele existe para medir algo muito simples: a qualidade real do ensino médico oferecido no país.

E o que ele revelou deveria constranger mais o sistema do que o aluno.

Cerca de 33% dos médicos avaliados não passaram na prova, mesmo já tendo CRM e atuando.

No último ano, o Brasil formou aproximadamente 40 mil médicos. Desses, cerca de 13 mil não demonstraram conhecimento mínimo esperado para exercer a medicina com segurança.

Aqui vale uma pausa.

Isso não é estatística. É gente atendendo gente.

Há também um impacto psicológico pouco discutido. O momento de urgência em saúde é, por definição, um momento de vulnerabilidade.

O paciente chega fragilizado, com medo, buscando alguém que oriente decisões difíceis quando ele próprio não consegue pensar com clareza.

Quando essa segurança se rompe, o efeito não é apenas clínico. É emocional.

A insegurança no atendimento aumenta ansiedade, sensação de desamparo e perda de controle.

Do outro lado, muitos médicos recém-formados também chegam inseguros, conscientes das lacunas da própria formação, pressionados a decidir rápido sem a base prática necessária.

Um sistema que forma mal não produz apenas erros técnicos. Produz medo dos dois lados da maca.

Quando alguém entra em um pronto-socorro, não quer saber se a faculdade economizou em laboratório, se faltou preceptor ou se o curso abriu rápido demais.

Quer saber se vai sair vivo.

Quer saber se, diante de uma parada cardiorrespiratória, alguém vai tentar ressuscitar ou apenas estender a manta depois do óbito, como vimos recentemente em um caso que chocou o país.

O problema não é o aluno.

O problema é o sistema que autorizou essa formação.

Hoje, o Brasil tem 351 cursos de medicina, quase o dobro do número existente nos Estados Unidos, mesmo com população menor e uma rede hospitalar muito mais desigual.

Ainda assim, 30% desses cursos foram reprovados pelo MEC.

Apenas 49 universidades conseguiram atingir a nota máxima.

Em contrapartida, 87% dos cursos federais ficaram com notas altas, 4 ou 5.

Do outro lado, entre instituições privadas com fins lucrativos, 60% não alcançaram nem o mínimo exigido.

Curso sem hospital escola.

Curso sem campo de prática.

Curso sem supervisão adequada.

Isso não forma médico. Forma diploma.

Diante desse cenário, surge a solução politicamente elegante: a chamada OAB da medicina.

Um exame final que condiciona o CRM à aprovação.

Parece firme.

Parece responsável.

Parece ação.

Mas vamos ser honestos?

É a saída mais confortável.

Ela cria uma barreira para o aluno, mas não fecha faculdade ruim.

Não impede cursos sem hospital escola.

Não responsabiliza quem lucrou formando mal.

A instituição continua faturando, o mercado de cursinhos preparatórios cresce e a culpa é terceirizada para quem já foi prejudicado pela formação.

Fechar curso dá conflito.

Rever autorizações mexe com interesses econômicos gigantescos.

Criar uma OAB médica transfere a responsabilidade e “resolve” o problema… no discurso.

Politicamente, é mais fácil.

Tecnicamente, é insuficiente.

Eticamente, é discutível.

Todos nós queremos médicos preparados quando chamamos o SAMU, quando entramos em um pronto-socorro, quando entregamos a vida de quem amamos nas mãos de um desconhecido.

Queremos alguém capaz de reconhecer que ainda há chance de vida.

Se a intenção é proteger pacientes, as soluções são menos populares, mas muito mais eficazes.

Fechar cursos com desempenho ruim recorrente.

Impedir novas faculdades sem clínica escola.

Reduzir vagas sem campo de prática.

Responsabilizar quem forma mal.

Porque saúde não admite improviso.

Porque erro médico não vira gráfico.

Não vira debate técnico.

Não vira número.

Erro médico vira história de família.

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